Guitarras do Cerrado
Um dos músicos mais respeitados da atualidade fala sobre as suas influências e dá conselhos aos iniciantes na arte da guitarra

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Desde a adolescência, o fã de Iron Maiden e AC/DC, Marcelo Barbosa, sempre era reconhecido pelo empenho e dedicação que dispensava ao seu instrumento inseparável: a guitarra. Marcelo começou a tocar aos doze anos de idade com uma Gianinni Sonic azul dada pela avó. Anos depois, ele viria a estudar com alguns dos maiores nomes do instrumento do país e do mundo. No Brasil, teve aulas com os conceituados Hélio Delmiro e Toninho Horta. No exterior, foi aluno do guitarrista americano Greg Howe.
Em 1996, ele fundou o GTR. Uma iniciativa audaciosa de criar um instituto musical dedicado exclusivamente a guitarra, algo inexistente na capital até então. Atualmente, o GTR é uma referência no estudo da guitarra para o país todo.
Marcelo integra as bandas Khallice e Zero10. E também participa dos projetos Almah, do vocalista Edu Falaschi (Angra) e Tritone, projeto instrumental em parceira com os guitarristas Edu Ardanuy (Dr. Sin) e Sergio “Serj” Buss (sideman do guitarrista americano Steve Vai). Além disso, também ministra workshops por todo o país. Hoje, aos 33 anos, ele é apontado pela critica especializada como um dos melhores guitarristas da atualidade.
Quais são os guitarristas que mais te influenciaram?
Tive a influência de vários grandes guitarristas. Sempre curti Steve Vai e Joe Satriani. Depois,vieram Greg Howe, Brett Garsed, Richie Kotzen e Scott Henderson. Todos, grandes gênios e donos de sonoridades e abordagens únicas do instrumento. Além desses, também tive influência de Edu Ardanuy, “Serj” Buss e Kiko Loureiro (Angra). Hoje em dia, ouço muitos instrumentistas, como pianistas, saxofonistas e orquestras… É uma maneira de expandir o meu universo musical.
Qual seria a formação de uma “banda dos sonhos”?
Para o som que costumo tocar, acredito que as bandas com as quais toco têm verdadeiros “Dream Teams”. Mas em uma situação hipotética, seria Geddy Lee (Rush) no baixo, Mike Portnoy (Dream Theater) na bateria, Derek Sherenian (Planet X) nos teclados, e Greg Howe na Guitarra.
Existe um solo que te faça “viajar”?
Vários. E viajo mesmo, parece que a alma sai do corpo e volta. Tem o de Shine on You Crazy Diamond, do Pink Floyd; o de Color me Blind, do Extreme; o de Isolated, do Dr. Sin e o de Loch Rannoch, de Brett Garsed. Não me canso de escutá-los!
Quem é ou quer ser músico não pode deixar de ouvir o quê?
Tem que ouvir o máximo de referências possíveis. Mas, recomendo conhecer pelo menos os grandes nomes de cada estilo… Quase tudo vem deles e sempre serão fontes inesgotáveis de inspiração. São coisas como Hendrix, Led Zeppelin, Beatles, Miles Davis, Bach e Albert Lee
Você foi colunista das revistas Guitar Class e Cover Guitarra. Como surgiu a oportunidade e como foi a experiência?
A oportunidade surgiu primeiro na Guitar Class, com uma indicação do meu amigo Sydnei Carvalho. A revista estava começando e eles queriam colunistas que fossem referencia em outras cidades além de RJ e SP. Fiz um bom trabalho lá e desenvolvi uma amizade com o Valmyr Tavares, que era o editor. Quando a revista acabou, ele me agradeceu pela parceria e disse que para onde fosse, me chamaria para trabalhar. Como ele foi para Cover Guitarra, não demorou em me fazer o convite. Fiquei lá um ano e meio, aproximadamente. No momento, ando sem tempo para escrever, mas em breve estarei de volta. Foi uma ótima oportunidade de divulgar meu nome e o meu trabalho. Além disso, fiz bons amigos dentro das editoras.
Em 2003, você participou do projeto Guitarras do Cerrado ao lado de outros guitarristas de renome, como Celso Salim e Kiko Péres (ex-Natiruts). Existe algum plano para uma nova edição do evento?
Este projeto foi idealizado por uma produtora aqui de Brasília, a GRV e custeado pelo GDF. Existe a possibilidade de outras edições, mas, por enquanto, ainda está tudo no papel.
Como você coordena a rotina de músico, professor e empresário?
Não é nada fácil. Durmo tarde, acordo cedo. Abri mão de hábitos que considerava inúteis, como televisão, por exemplo. Deve fazer uns 10 anos que não sei o que é a programação aberta da TV brasileira… Em alguns momentos tenho que priorizar um lado da carreira, o que, automaticamente, faz com que eu negligencie outro. Mas até agora tenho conseguido equilibrar as coisas bem.
Você tem algum projeto de expansão para o GTR?
Sim. Há três anos o GTR virou franquia, e aqui em Brasília já somos três unidades. A partir de 2009, existirá o licenciamento do método de ensino. Uma boa forma de expandir a metodologia do GTR para todo o país, ajudando, assim, os professores e os alunos.
Qual é o perfil dos alunos da escola?
Temos muitos alunos em cada unidade e o perfil varia muito. Mas é fato que muitos gostam de rock/metal e vários deles pretendem seguir a carreira profissional. Recentemente, o jogo Guitar Hero também despertou o interesse das crianças pelo instrumento.
Como é viver exclusivamente da música sem se misturar ao “mainstream”?
Meu sonho nunca foi fazer parte do mainstream. Se isso acontecesse, seria bom. Mas esse nunca foi o meu objetivo. Meu sonho sempre foi ser reconhecido pelo meu trabalho e viver dignamente da minha guitarra… Viver de música, principalmente em países como o Brasil, é uma dádiva. Há mais de 10 anos que tenho uma média entre 8 a 10 shows por mês e lista de espera para ter aula comigo. Isso é maravilhoso, além do mais, não saberia fazer outra coisa.
Você integra o Khallice, o Zero10, o Almah e mais alguns projetos paralelos, como é o Marcelo em cada banda?
Tento me adequar ao que a banda precisa e vestir a camisa. O Zero10 é uma banda de pop/rock tradicional da noite brasiliense. Somos todos amigos de infância e os shows são dançantes e divertidos. As outras duas produzem material autoral e por isso a abordagem é outra. No caso do Almah, foi uma grande oportunidade que surgiu e estou trabalhando muito com eles. Acredito que colheremos muitos bons frutos em breve.
Como você vê a cena musical de Brasília atualmente?
Não posso reclamar. Sempre toquei muito por aqui. Houve uma época em que o movimento das bandas autorais era mais significativo. Mas tudo é cíclico. De qualquer forma, existem muitas bandas, mas não muitos lugares para tocar. É um mercado competitivo. Mas temos bandas muito boas aqui. Tanto autorais, como covers.
Muito se fala sobre a morte do rock/metal. O gênero tem futuro?
Claro que sim. Não acho que o rock tenha morrido de forma alguma. A coisa muda, se recicla, mas não morre. O rock como era quando surgiu, talvez não tenha o mesmo espaço. Mas tem muita gente fazendo rock, inclusive no mainstream, quer gostemos ou não.
Para os iniciantes, quais são suas dicas?
Manter a cabeça aberta, ouvir estilos variados e se dedicar. Quanto mais souber sobre o seu instrumento, maior será o seu poder de expressão através do mesmo.

Foto: Divulgação
por Gerson Marlon
